I Pregação Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa

"Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo” (Rm 12, 2), foi o tema da I reflexão da Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

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Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2018-04-02

Jesus Cristo ressuscitou: uma certeza inusitada!




Homilia do Pe. Clairton Alexandrino* (Por Antonio Marcos)

A criação com todas as suas coisas grandiosas já eram maravilhosas aos nossos olhos. A providência de Deus já constituía um grande feito. Deus acompanhava a sua história. O povo foi liberto do Egito, dos seus 400 anos de escravidão. Povo sofrido e machucado, embora tenha ajudado na construção do Egito. Povo humilhado, mas Deus faz surgir uma luz de onde não havia nada. Deus mostra assim que ele pode fazer surgir uma luz do fim do túnel, uma ação salvífica inesperada. Deus não quer o seu povo na miséria.

Podemos contemplar tantos feitos de Deus na história. Todo o seu rastro mostrava o seu poder e a sua ação de salvação, de escolha ao povo de Israel. O povo reclamou das cebolas, queria aquela vida porque a mudança exige sacrifício. Havia também ingratidão. Agora a sua surpresa é de forma mais inusitada. Envia o seu Filho para libertar o homem de uma escravidão muito mais pesada: o pecado. Deus queria dar uma felicidade que o homem jamais ouvira falar. Nada estava perdido.

Na surpresa Deus suscita a vida. Os atos dolorosos da sua Paixão se transformaram em vida e salvação. Deus ressuscita Jesus e o torna Senhor dos vivos e dos mortos. Ele traz as chagas gloriosas. Jesus tem a chave da morte. Ela foi tratada pela vida ressuscitada de Jesus. As mortalhas que nos cobriam foram tiradas. “Ó morte, onde estás a tua vitória?”. Hoje é dia de festa! Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e nEle exultemos!” A vitória de Cristo já é a nossa vitória. Muitos países têm medo de Jesus. Armam-se para se protegerem dos que creem em Jesus. Fogem da cruz e não aceitam os que que nela acreditam. Tudo se confirma como diz o Evangelho. “Ele foi levado ao matadouro e não abriu a boca”.

No Egito um homem é condenado por portar bíblias e aqui eles constroem suas mesquitas e seus cultos. Fazemos isso porque não acreditamos e não cultuamos o ódio. Aquele que esteve morto agora vive e não precisamos ter medo. Todos haverão de se prostrar diante de Jesus. Jesus é mais poderoso que todos os regimes carrascos da história. Poderíamos falar do Império Romano, mas ele se desfez no tempo certo e passou. Tudo passa e só Deus permanece. Aquela certeza da vitória ruiu. São João falou da prostituta, do demônio, da besta fera. 

Não pensemos que o nome de Jesus desaparecerá. Os poderosos deste mundo conspiram contra Deus, mas se trata de um tempo misterioso. O demônio conhece a história e sabe do pouco tempo que lhe resta. Cristo esmagou a cabeça da serpente. Que o demônio não roube Cristo da família e do nosso coração. As ideologias perversas do nosso mundo de hoje mostram as conspirações contra Jesus Cristo, mas não tenhamos medo, digo-lhes mais uma vez! Jesus Cristo está vido e caminha conosco. Reinemos com Ele.

Fonte: Homilia do Rev.mo Sr. Pe. Clairton Alexandrino, pároco da Catedral de Fortaleza (Paróquia São José), por Antonio Marcos (Missa da Ressurreição, 1º de abril de 2018..


2018-03-03

II Pregação da Quaresma do padre Raniero Cantalamessa ao Papa Francisco e à Cúria Romana



Na manhã desta sexta-feira, 2 de março, o padre Raniero Cantalamessa O.F.M. propôs a II Pregação da Quaresma ao Papa Francisco e à Cúria Romana, reunidos na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano, com o título "Que vossa caridade não seja fingida". A tradução é de Thácio Siqueira. Eis a íntegra do texto:

1. Indo às fontes da santidade cristã Juntamente com a chamada universal à santidade, o Concílio Vaticano II também deu indicações precisas sobre o que se entende por santidade, no que consiste. Na Lumen gentium se lê:

" Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: «sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito» (Mt. 5,48) (121). A todos enviou o Espírito Santo, que os move interiormente a amarem a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cfr. Mc. 12,30) e a amarem-se uns aos outros como Cristo os amou (cfr. Jo. 13,34; 15,12). Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam."(LG 40).

Tudo isso está resumido na fórmula: "a santidade é a união perfeita com Cristo" (LG, 50). Esta visão reflete a preocupação geral do Concílio de voltar às fontes bíblicas e patrísticas, superando, também neste campo, a postura escolástica dominante durante séculos. Agora é uma questão de tomar consciência dessa renovada visão de santidade e fazê-la passar na prática da Igreja, isto é, na pregação, na catequese, na formação espiritual dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa e - por que não? - também na visão teológica que inspira a prática da Congregação dos Santos[1].
Uma das principais diferenças entre a visão bíblica da santidade e a da escolástica reside no fato de que as virtudes não se fundamentam tanto na "reta razão" (a recta ratio aristotélica), mas no Querigma; ser santo não significa seguir a razão (muitas vezes, é o contrário!), mas seguir a Cristo. A santidade cristã é essencialmente cristológica: consiste na imitação de Cristo e, no seu cume - como diz o Concílio - na "perfeita união com Cristo".

A síntese bíblica mais completa e mais compacta de uma santidade fundada no Querigma é aquela descrita por São Paulo na parte parenética da Carta aos Romanos (capítulos 12-15). No início, o Apóstolo dá uma visão resumida do caminho de santificação do crente, do seu conteúdo essencial e do seu propósito:

"Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito" (Rm 12,1-2).

Na última pregação, nós meditamos estes versículos. Nas próximas meditações, partindo do que se segue no texto paulino e completando-o com o que o Apóstolo diz em outro lugar sobre o mesmo argumento, tentaremos destacar os traços salientes da santidade, aqueles que hoje são chamados de "virtudes cristãs" e que o Novo Testamento define como os "frutos do Espírito", as "obras da luz", ou também "os sentimentos que estavam em Cristo Jesus" (Fl 2, 5).

A partir do capítulo 12 da Carta aos Romanos, todas as principais virtudes cristãs, ou frutos do Espírito, estão listadas: o serviço, a caridade, a humildade, a obediência, a pureza. Não como virtudes a serem cultivadas por si mesmo, mas como necessárias consequências da obra de Cristo e do batismo. A seção começa com uma conjunção que por si só vale um tratado: “Vos exorto, portanto...”. Aquele "portanto" significa que tudo o que o Apóstolo dirá desse momento em diante é a consequência do que escreveu nos capítulos precedentes sobre a fé em Cristo e sobre a obra do Espírito. Refletiremos sobre quatro destas virtudes: caridade, humildade, obediência e pureza, começando com a primeira.

2. Um amor sincero
O Ágape, ou caridade cristã, não é uma das virtudes, nem sequer a primeira; é a forma de todas as virtudes, da qual "dependem todas as leis e os profetas" (Mt 22, 40; Rom 13,10). Entre os frutos do Espírito que o Apóstolo lista em Gálatas 5, 22, em primeiro lugar, encontramos o amor: "O fruto do Espírito é amor, alegria, paz...". E é com isso que, de forma coerente, também começa a parênese sobre as virtudes na Carta aos Romanos. Todo o capítulo doze é uma sucessão de exortações à caridade:

"Que vossa caridade não seja fingida [...]; amai-vos mutuamente com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros..." (Rm 12, 9 ss).

Para entender a alma que unifica todas essas recomendações, a ideia básica, ou melhor, o "sentimento" que Paulo tem da caridade deve começar daquela palavra inicial: "Que vossa caridade não seja fingida!” Esta não é uma das muitas exortações, mas a matriz a partir da qual derivam todas as demais. Contém o segredo da caridade.

O termo original usado por São Paulo e que é traduzido como "sem fingimentos", é anhypòkritos, isto é, sem hipocrisia. Esta palavra é uma espécie de lâmpada-piloto; na verdade, é um termo raro que encontramos empregado, no Novo Testamento, quase que exclusivamente para definir o amor cristão. A expressão "amor sincero" (anhypòkritos) retorna novamente em 2 Cor 6, 6 e 1 Pd 1, 22. Este último texto permite compreender, com toda a certeza, o significado do termo em questão, porque o explica com uma perífrase; o amor sincero – diz – consiste em amar-se intensamente “com coração verdadeiro”.

São Paulo, então, com aquela simples afirmação: "a caridade seja sem fingimento!", leva o discurso à própria raiz da caridade, ao coração. O que se requer do amor é que seja verdadeiro, autêntico, não fingido. Também nisso o Apóstolo é o eco fiel do pensamento de Jesus; ele, de fato, havia indicado, repetidamente e com força, o coração, como o "lugar" no qual se decide o valor do que o homem faz" (Mt 15, 19).
Podemos falar de uma intuição paulina em relação à caridade; consiste em revelar, por trás do universo visível e externo da caridade, feito de obras e de palavras, outro universo todo interior, que é, em relação ao primeiro, o que é a alma para o corpo. Reencontramos essa intuição no outro grande texto sobre a caridade, que é 1 Cor 13. O que São Paulo diz ali, observando bem, se refere inteiramente a esta caridade interior, às disposições e sentimentos de caridade: a caridade é paciente, é benigna, não é invejosa, não se irrita, tudo desculpa, tudo crê, tudo espera... Nada que diga respeito, por si e diretamente, ao fazer o bem, ou as obras de caridade, mas tudo é reconduzido à raiz do querer bem. A benevolência vem antes da beneficência.

É o próprio Apóstolo que faz explícita a diferença entre as duas esferas da caridade, dizendo que o maior ato de caridade externa (distribuir aos pobres todas as próprias coisas) não beneficiaria em nada, sem a caridade interior (cf. 1 Cor 13,3). Seria o oposto da caridade "sincera". A caridade hipócrita, de fato, é precisamente aquela que faz o bem, sem querer bem, que mostra externamente uma coisa que não encontra uma correspondência no coração. Neste caso, há uma aparência de caridade, que pode, no máximo, esconder egoísmo, a busca de si mesmo, instrumentalização do irmão, ou também simplesmente o remorso de consciência.

Seria um erro fatal contrapor a caridade do coração à caridade dos fatos, ou se refugiar na caridade interior, para encontrar nela uma espécie de álibi perante a falta de caridade factual. Sabemos com que vigor a palavra de Jesus (Mt 25), de São Tiago (2, 16 s) e de São João (1 Jo 3, 18) encorajam à caridade dos fatos. Sabemos a importância que São Paulo mesmo deu às coletas a favor dos pobres de Jerusalém.

Além disso, dizer que, sem a caridade, "não ganho nada” inclusive dando tudo aos pobres, não significa dizer que tal atitude não sirva para ninguém e que seja inútil; significa, pelo contrário, dizer que não serve “para mim”, enquanto que pode servir para o pobre que a recebe. Não se trata, portanto, de atenuar a importância das obras de caridade, mas de garantir-lhes um fundamento seguro contra o egoísmo e os seus infinitos truques. São Paulo quer que os cristãos estejam “enraizados e fundamentados na caridade” (Ef 3, 17), ou seja, que a caridade seja a raiz e o fundamento de tudo.
Quando amamos "de coração", é o próprio amor de Deus "derramado em nossos corações pelo Espírito Santo" (Rm 5, 5) que passa por nós. A ação humana é verdadeiramente deificada. Tornar-se "participantes da natureza divina" (2 Pd 1, 4) significa, de fato, tornar-se participantes da ação divina, da ação divina de amar, dado que Deus é amor!

Nós amamos os homens não só porque Deus os ama, ou porque Ele quer que os amemos, mas porque, ao nos dar o seu Espírito, Ele colocou em nossos corações seu próprio amor por eles. Isso explica por que o apóstolo afirma imediatamente depois: "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei." (Rm 13, 8).
Por que, nos perguntamos, uma "dívida"? Porque recebemos uma medida infinita de amor para ser distribuído, a seu tempo, entre os irmãos (cf Lc 12, 42, Mt 24, 45 s.). Se não o fizermos, retiramos do irmão algo que lhe é devido. O irmão que aparece à sua porta, talvez peça algo que você não lhe pode dar; mas se você não pode dar-lhe o que ele pede, preste atenção para não manda-lo embora sem aquilo que lhe é devido, ou seja, o amor.

3. Caridade com os de fora

Depois de nos ter explicado o que é a verdadeira caridade cristã, o Apóstolo, na sequência da sua parênese, mostra como esse "amor sincero" deve ser traduzido em ação nas situações de vida da comunidade. O Apóstolo destaca duas situações: a primeira diz respeito às relações ad extra da comunidade, ou seja, com os de fora; a segunda, as relações ad intra, entre os membros da própria comunidade. Vamos ouvir algumas das suas recomendações referentes à primeira relação, aquela com o mundo exterior:

"Abençoai os que vos perseguem; abençoai-os, e não os praguejeis [...] Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus [...] Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber [...]Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem." (Rm 12, 17-21).

Nunca antes, como neste ponto, a moral do evangelho parece original e diferente de qualquer outro modelo ético, e nunca a parênese apostólica parece mais fiel e em continuidade com a do Evangelho. O que torna tudo isso particularmente atual para nós é a situação e o contexto em que esta exortação é dirigida aos que creem. A comunidade cristã de Roma é um corpo estranho em um organismo que - na medida em que toma consciência de sua presença - rejeita-o. É uma pequena ilha no mar hostil da sociedade pagã. Em circunstâncias como esta, sabemos quão forte é a tentação de se fechar, desenvolvendo o sentimento elitista e sombrio de uma minoria de salvos em um mundo de perdidos. Com este sentimento vivia, naquele mesmo momento histórico, a comunidade essênia de Qumran.
A situação da comunidade de Roma descrita por Paulo representa, em miniatura, a situação atual de toda a Igreja. Não falo das perseguições e do martírio ao qual nossos irmãos de fé são expostos em muitas partes do mundo; falo da hostilidade, da recusa e muitas vezes do profundo desprezo com que não só os cristãos, mas todos os crentes em Deus são vistos em vastos estratos da sociedade, geralmente os mais influentes e que determinam o sentimento comum. Eles são considerados precisamente como corpos estranhos em uma sociedade evoluída e emancipada.

A exortação de Paulo não nos permite perder um único momento em recriminações acrimoniosas e em polêmicas estéreis. Naturalmente, não se exclui o fato de dar razão da esperança que está em nós "com gentileza e respeito", como recomendava São Pedro (1 Pd 3, 15-16). É uma questão de entender qual atitude do coração deve ser cultivada com relação a uma humanidade que, como um todo, rejeita Cristo e vive nas trevas e não na luz (cf. Jo 3,19). Tal atitude é aquela de uma profunda compaixão e tristeza espiritual, de amá-los e sofrer por eles; carregar seus fardos perante Deus, como Jesus carregou nossos fardos perante o Pai, e não deixar de parar de chorar e orar pelo mundo. Este é um dos mais belos traços da santidade de alguns monges ortodoxos. Penso em São Silvano do Monte Athos. Ele dizia:

"Há homens que desejam a seus inimigos e aos inimigos da Igreja a ruína e os tormentos do fogo da condenação. Eles pensam assim porque não foram instruídos pelo Espírito Santo no amor de Deus. Aquele que, pelo contrário, realmente aprendeu derrama lágrimas por todo o mundo. Você diz: ‘É mau e deve queimar no fogo do inferno’. Mas, eu lhe pergunto: ‘Se Deus desse a você um lindo lugar no paraíso e de lá você visse queimar nas chamas aquele que você desejou tal fim, possivelmente, nem então, você sentiria compaixão por ele, quem quer que ele tivesse sido, mesmo se inimigo da Igreja[2]”

Na época deste santo monge, os inimigos eram principalmente os bolcheviques que perseguiam a Igreja da sua amada pátria, a Rússia. Hoje, a frente alargou-se e não existe "cortina de ferro" a esse respeito. Na medida em que um cristão descobre a infinita beleza, o amor e a humildade de Cristo, não pode deixar de sentir uma profunda compaixão e sofrimento por aqueles que voluntariamente se privam do maior bem da vida. O amor torna-se mais forte nele do que qualquer ressentimento. Em uma situação semelhante, Paulo diz que está disposto a ser ele mesmo "anátema, separado de Cristo", se isso pudesse servir para ser aceito por aqueles do seu povo que permaneceram fora (Rm 9, 3).

4. A caridade ad intra


O segundo grande campo de exercício da caridade é, se dizia, as relações dentro da comunidade. Na prática: como gerenciar os conflitos de opiniões que emergem entre seus vários componentes. Sobre este tema, o Apóstolo dedica todo o capítulo 14 da Carta.

O conflito que ocorria então na comunidade romana era entre aqueles que o Apóstolo chama de "os fracos" e aqueles que chama de "os fortes", entre os quais ele se coloca ("Nós, que somos os fortes ...") (Rm 15,1). Os primeiros eram aqueles que se sentiam moralmente obrigados a observar determinadas prescrições herdadas da lei ou de crenças pagãs anteriores, como não comer carne (com suspeita de que tinha sido sacrificada aos ídolos) e o distinguir os dias em felizes e infelizes. Os segundos, os fortes, eram aqueles que, em nome da liberdade cristã, tinham superado estes tabus e não distinguiam comida de comida ou dia de dia. A conclusão do discurso (cf. Rm 15, 7-12) deixa claro que, no fundo, há o usual problema da relação entre os crentes provenientes do judaísmo e os crentes provenientes dos gentios.

As exigências da caridade que o Apóstolo inculca neste caso nos interessam no mais alto grau porque são as mesmas que se impõem em cada tipo de conflito intereclesial, inclusive aqueles que vivemos hoje, tanto a nível de Igreja universal quanto na comunidade em que cada um mora.

Os critérios que o Apóstolo sugere são três. O primeiro é seguir a própria consciência. Se alguém está convencido de cometer pecado fazendo certa coisa, não deve fazê-la. “Tudo isso, de fato, que não vem da consciência - escreve o Apóstolo - é pecado" (Rm 14, 23). O segundo critério é respeitar a consciência dos outros e abster-se de julgar o irmão:

 “Por que julgas, então, o teu irmão? Ou por que desprezas o teu irmão? [...]"Deixemos, pois, de nos julgar uns aos outros; antes, cuidai em não pôr um tropeço diante do vosso irmão ou dar-lhe ocasião de queda." (Rm 14, 10.13).

O terceiro critério diz respeito principalmente aos "fortes" e é de evitar o escândalo:

"Sei, estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma; somente o é para quem a considera impura. Ora, se por uma questão de comida entristeces o teu irmão, já não vives segundo a caridade. Pela comida não causes a perdição daquele por quem Cristo morreu! [...] Portanto, apliquemo-nos ao que contribui para a paz e para a mútua edificação." (Rm 14, 14-19).

Todos esses critérios são, no entanto, particulares e relativos, em comparação com outro que, pelo contrário, é universal e absoluto, o do senhorio de Cristo. Ouçamos como o Apóstolo o formula:
"Quem distingue o dia, age assim pelo Senhor. Quem come de tudo, o faz pelo Senhor, porque dá graças a Deus. E quem não come, abstém-se pelo Senhor, e igualmente dá graças a Deus. Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Para isso é que morreu Cristo e retomou a vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos." (Rm 14, 6-9).

Cada um é convidado a examinar-se a si mesmo para ver o que há no fundo da própria escolha: se há o senhorio de Cristo, a sua glória, o seu interesse, ou não, pelo contrário, mais ou menos dissimuladamente, a própria afirmação, o próprio “eu” e o próprio poder; se a sua escolha é de natureza verdadeiramente espiritual e evangélica, ou se não depende pelo contrário da própria inclinação psicológica, ou, pior, da própria opção política. Isso vale em um e no outro sentido, ou seja, tanto para os assim chamados fortes quanto para os assim chamados fracos; tanto, diremos nós hoje, para aqueles que estão do lado da liberdade e da novidade do Espírito, quanto para aqueles que estão do lado da continuidade e da tradição.

Há uma coisa que deve ser levada em consideração para não ver, na atitude de Paulo sobre esse assunto, uma certa inconsistência em relação ao seu ensino anterior. Na Carta aos Gálatas, ele parece muito menos disposto ao compromisso e negociações, por vezes, encolerizado. (Se ele tivesse que se submeter ao processo de canonização hoje, Paulo, dificilmente, se tornaria santo: teria sido difícil demonstrar a "heroicidade" de sua paciência! Ele às vezes "explode", mas podia dizer: "Não sou mais eu quem vivo, Cristo vive em mim "(Gal 2,20), e essa, nós vimos, é a essência da santidade cristã).

Na Carta aos Gálatas, Paulo censura Pedro pelo que ele parece recomendar a todos, ou seja, abster-se de mostrar sua convicção para não escandalizar os simples. Na verdade, em Antioquia, Pedro estava convencido de que comer com os gentios não contaminasse um judeu (já havia estado na casa de Cornélio!), mas se abstém de fazê-lo para não causar escândalo aos judeus presentes (cf. Gal 2, 11-14). O próprio Paulo, em outras circunstâncias, agirá da mesma maneira (veja At 16, 3; 1 Cor 8, 13).

A explicação não está naturalmente apenas no temperamento de Paulo. Em primeiro lugar, o que estava em jogo em Antioquia era muito mais claramente ligado à fé e à liberdade do Evangelho do que parecia ser em Roma. Em segundo lugar - e este é o principal motivo - para os Gálatas Paulo fala como fundador da Igreja, com a autoridade e a responsabilidade do pastor; para os Romanos, fala como mestre e irmão na fé: para contribuir, diz ele, à edificação comum (ver Rm 1, 11-12). Há uma diferença entre o papel do pastor ao qual é devida a obediência e o do mestre ao qual somente se deve respeito e escuta. Isso nos faz entender que aos critérios de discernimento mencionados deve-se acrescentar outro, do qual não se demorará para se tomar consciência com o desenvolvimento da comunidade cristã, ou seja, o critério da autoridade e da obediência.

Enquanto isso, ouçamos como dirigida à Igreja de hoje a exortação conclusiva que o Apóstolo dirigia à comunidade de então: "Por isso, acolhei-vos uns aos outros, como Cristo nos acolheu para a glória de Deus." (Rm 15,7).

 (Tradução ao português: Thácio Siqueira, Associação Marie de Nazareth)

[1] Cf. Le cause dei santi. Sussidio per lo Studium, a cura della Congregazione delle Cause dei Santi, Libreria Editrice Vaticana, 3a ed. 2014, pp. 13-81.
[2] Archimandrita Sofronio, Silvano del Monte Athos. La vita, la dottrina, gli scritti,  Torino 1978, pp. 255 s.

Fonte: vatican.news, 2 de fevereiro de 2018.









2018-02-27

Os tormentos de Francisco: "Vivi anos obscuros, tinha medo de estar no fim"


No encontro privado há alguns dias com os párocos romanos, Francisco falou de sua década de desorientação, até 1992. Ele disse ter vivido o tempo de uma grande desolação, um tempo obscuro.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 22-02-2018, traduzida por Moisés Sbardelotto e publicada no Brasil pelo Instituto Unisinos.

“Eu pensava – continuou – que já era o fim da minha vida”, porque, “sim, eu era confessor, mas com um espírito de derrota”. E ainda: “Eu rezei muito, nesse tempo, mas estava seco como uma madeira”, porque “eu acreditava que a plenitude da minha vocação estava em fazer coisas”. No entanto, “não abandonei a oração, e isso me ajudou”.

O Papa Francisco não tem medo de falar de si, entrando até nos momentos mais reservados e, ao mesmo tempo, obscuros da sua vida. As palavras que ele mesmo diz de improviso, ao se encontrar, na semana passada, com os párocos de Roma na Basílica de São João de Latrão, são a parte mais íntima de sua vida e vão desvendar, com simplicidade, o tempo de uma espécie de noite escura vivida pelo futuro papa na Argentina, entre o início dos anos 1980 e 1992, ano em que João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires.

Depois de um telefonema do núncio vaticano na Argentina, Ubaldo Calabresi, “eu abri, depois, outra porta”, contou. Bergoglio, que completou 45 anos em 1981, vivia um momento de difícil passagem da sua vida. Depois de ter se tornado, com apenas 37 anos, o superior da província argentina da Companhia de Jesus e, depois, reitor do Colégio Máximo de San Miguel, tornou-se confessor, cargo no qual não se achou completamente.

Passou um período na Alemanha, dedicado a terminar uma tese de doutorado sobre Romano Guardini, que, porém, nunca chegaria a defender, e depois partiu para Córdoba, onde, “como trabalho”, foi diretor espiritual e confessor da Igreja da Companhia de Jesus.

Foram anos duros para ele, de escuridão, até mesmo de incompreensões dentro da Companhia, um período que os biógrafos definem como “exílio”. E nos quais Bergoglio muitas vezes teve que repetir para si mesmo: “Agora eu não sei o que fazer”.

Ele nunca imaginaria o que aconteceria depois: a nomeação a bispo auxiliar, a liderança de toda a diocese de Buenos Aires, a eleição ao sólio de Pedro em 13 de março de 2013, exatamente há cinco anos.

É verdade, como ele mesmo revela em um livro-entrevista escrito com o sociólogo francês Dominique Wolton, ainda em 1978, ele viveu um período de inquietação – “o demônio do meio-dia”, como é chamada na Argentina a crise da meia-idade – enfrentado, “durante seis meses, uma vez por semana”, com uma psicanalista judia que o ajudou muito.

Mas aqui parece que ele teve que enfrentar algo mais profundo, uma crise na vocação, resolvida apenas graças à oração e, em particular, a uma relação “face a face com o Senhor, falando, conversando, dialogando com Ele”.

A noite escura é de muitas mulheres e homens de fé, “um espinho na carne”, diz São Paulo. João da Cruz escreve sobre isso e fala da noite dos sentidos e do espírito, momento de labuta, sofrimento, dúvida, sensação de solidão e de abandono por parte de Deus. Uma escuridão, explica o carmelita espanhol, desejada por Deus para purificar o alma da ignorância e libertá-la dos apegos a afetos, pessoas e coisas, que as impedem de ter o ímpeto para o alto e para a união amorosa com Ele.
Ela foi vivida, entre muitos, também por Teresa de Calcutá, que se sentiu por muito tempo “abandonada por Deus”. Ela sorria para todos, mas dentro de si não tinha nada mais do que escuridão.

Bergoglio não chegou a dizer que se sentiu abandonado por Deus. No entanto, sua desorientação é real. Mas, confidenciou aos padres romanos, para muitos sacerdotes pode ser assim: “É um momento áspero, mas libertador. O que passou, passou”. Depois “há outra idade, outro seguir em frente”.

E, de fato, tudo mudou posteriormente. O jesuíta que, em 1978, ouviu, enquanto estava no carro, que haviam eleito Karol Wojtyla ao sólio de Pedro, um homem cujo nome ele custa a repetir, partiu para Roma em 2013, convencido de voltar para casa logo.

As coisas ocorreram de forma diferente. Bergoglio se tornou Francisco e ficou longe da sua Argentina. Mas a crise dos anos de Córdoba passou, hoje. Aos seus colaboradores, ele repete que não sente saudade alguma do seu país. Ele escolheu morar em Santa Marta não por rejeitar o luxo do apartamento apostólico, mas porque aqueles quartos lhe parecem um funil ao contrário, uma porta pequena na entrada de espaços grandes demais.

Em Santa Marta, ele vê as pessoas, reza, trabalha, não se sente sozinho. A estrada é plana. A noite escura já parece ter desaparecido.

Fonte: Central Cultura de Formação

CNBB: a agressividade crescente nas redes sociais por Católicos é lamentável


“Escutar a voz de Jesus implica em viver no amor fraterno”. Este é o ponto de partida da reflexão apresentada pelo arcebispo de Brasília (DF) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Sergio da Rocha, no folheto O Povo de Deus do último domingo, 25. No texto, dom Sergio lamenta que muitos católicos têm compartilhado e alimentado agressividade nas redes sociais e exorta: “É pecado grave usar o nome de Deus ou qualquer religião para praticar ou justificar a violência”.

Comentando o Evangelho do dia, sobre a Transfiguração do Senhor, dom Sergio destaca o convite do Pai para escutar a voz de Jesus e indica a Quaresma como “tempo especial de conversão em preparação para a Páscoa”, e que deve ser vivido através da caridade, como ensina a Igreja.

A Campanha da Fraternidade (CF) está entre os principais meios de vivência do amor ao próximo na Quaresma, segundo o presidente da CNBB: “Ela é um meio especial para a conversão e a verdadeira caridade”. Para dom Sergio, o lema “Vós sois todos irmãos” pretende contribuir para superar a violência e promover a paz.

O cardeal ressalta que muitas iniciativas podem ser desenvolvidas para alcançar os objetivos da CF deste ano e que cada um pode dar a sua contribuição “para superar a violência e construir a fraternidade e paz nos ambientes em que vive”. Mas lamenta a agressividade crescente “compartilhada e alimentada por muitos católicos nas redes sociais”.

“Diga não à violência nas redes sociais! Não compartilhe conteúdos ofensivos e desrespeitosos. Não participe de grupos de WhatsApp ou de outras redes sociais que disseminam fofocas, fazem linchamento moral e críticas destrutivas, atingindo até mesmo a Igreja”, conclama.

Para o cardeal, é lamentável que haja pessoas ou grupos que se dizem cristãos ou católicos recorrendo à violência para fazer valer a sua opinião e interesses: “É pecado grave usar o nome de Deus ou qualquer religião para praticar ou justificar a violência”, exorta.

“Quem escuta a voz de Jesus Cristo não alimenta, nem reproduz a violência disseminada na sociedade. Ao contrário, contribui para a paz, através do respeito e do diálogo, da misericórdia e do perdão. Quem escuta a voz de Jesus testemunha a sua palavra “Vós sois todos irmãos”, jamais tratando o outro que pensa diferente como um inimigo a ser combatido, mas como um irmão a ser amando, se necessário com a correção fraterna e o perdão. A paz é dom de Deus a ser compartilhado nesta Quaresma”, finaliza.

Fonte: Cardeal Sergio da Rocha (Arcebispo de Brasília - DF), presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 26 de fevereiro de 2018. 

ESCLARECIMENTOS: A reflexão foi, sem dúvida, com relação ao que o leigo Bernardo Pires Küster (Londrina / PR) vem expondo nas redes sociais acerca da CF 2018, os Encontros Intereclesiais das CEBs, os Documentos recentes da CNBB, o destino do dinheiro administrado pelo Fundo Nacional de Solidariedade (FDS) e o papel "político e socialista" (ação da Igreja Vermelha) dentro da CNBB. As declarações estão causando um rebuliço na Internet, nas Paróquias e na Instituição CNBB. Esperamos que as desavenças cessem e possa prevalecer a humildade, a caridade, o diálogo e a justiça. Todos precisamos de conversão! 

RESPOSTA DO LEIGO BERNARDO PIRES KÜSTER (Facebook, 26 de fevereiro de 2018)

Se o cardeal Dom Sérgio Rocha, presidente da CNBB, afirma que "a corrupção é uma forma de violência, e ela mata", seria muito coerente e sábio afirmar, dentro da lógica do eminente cardeal, que os políticos petistas (e seus sequazes de outros partidos) são, no mínimo, co-responsáveis pelos mais de 60.000 homicídios que ocorrem no Brasil.

Nunca vi a CNBB emitir uma notinha sequer para dar um passa-moleque nos auto-proclamados políticos católicos que estiveram envolvidos na Lava Jato. Mas emitir notinha e publicar reportagens evasivas contra um leiguin mequetrefe feito eu pelo jeito virará expediente.

O problema todo agora é a "violência nas redes sociais". Valha-me, ó Deus! Se a cúpula de uma Conferência NACIONAL de bispos se sente ameaçada e agredida por UM ÚNICO VÍDEO, significa que há muitos pontos frágeis acusando a pancada. Quem não deve não teme.

CNBB - Conferência dos Bispos, por que simplesmente não fazer um vídeo, ou documento público, contra-argumentando pormenorizadamente ponto a ponto os fatos apresentados no documentário? Atingir minha conduta não alterará os fatos. É mero wishful thinking, folks.

Recomendação: uma mera notinha pública evasiva e indireta não resolverá a questão, mas apenas deixará, novamente, a emenda pior que o soneto. Fica a dica.





2018-02-26

CNBB e BERNARDO KÜSTER: afirmações e paradoxos!



Confesso que não gosto muito de reproduzir algumas polêmicas da internet, sobretudo quando as afirmações de ambos os lados carecem de mais profundidade, razões e objetivos. Em virtude do Ano do Laicato celebrado pela Igreja do Brasil, o leigo Bernardo Pires Küster (Londrina / PR) está comentando e “expondo” – no seu Canal no Youtube e no Facebook – uma série de questões que envolvem a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Para o autor o Texto da CNBB sobre a CF 2018 (assim como sua Novena) está cheio de termos ligados às questões para com as quais a Igreja tem um posicionamento claro, mas que lá está recheado de ideologias socialistas, comunistas, provindas de uma ala da CNBB que favorece determinados partidos e ideologias, tudo em nome da defesa do povo e de suas valores.

Bernardo expôs os paradoxos existentes na tal chamada “Campanha da Fraternidade”, de forma especial, e no destino do dinheiro arrecadado pelas Paróquias e o repasse de 40% ao Fundo Nacional de Solidariedade (FDS), administrado pela Cáritas do Brasil (órgão da CNBB),e que são revertidos para o fortalecimento da solidariedade entre as diferentes regiões do país. Acontece que - segundo Bernardo – parte desses valores é direcionado aos Movimentos que portam “ideologias” que vão contra determinados princípios ensinados pela Igreja, quando ela afirma o que significa o aborto, a ideologia do gênero, o casamento de homossexuais, etc. Paradoxos!

O Leigo de Londrina está sendo “amado e odiado”, chamados por muitos como “um jornalista da Direita ligado ao “Movimento Brasil Livre”. Não considero assim, mas penso que Bernardo Küster pecou um pouco quando pretende mostrar as diferenças dentro da Instituição. Ao meu ver parece que a CNBB "precisa cair no descrético", porque nenhum valor ela tem. Não é bem assim! Não podemos generalizar! Por outro lado as questões apresentadas por Bernardo precisam ser levadas em consideração e o povo precisa de esclarecimentos mais contundentes por parte da Instituição; precisa, sobretudo, que ela caminhe nos trilhos do Evangelho e da Tradição.

Os fiéis leigos pediram ao Pe. Zezinho que dissesse algo sobre o que anda falando Bernardo. O prelado divulgou uma nota em sua página no Facebook, mas, após tanta polêmica, acabou deletando. Pe. Joãozinho publicou a nota em sua página pessoal no Facebook. Uma enxurrada de comentários contra e a favor de Bernardo Küster, contra e a favor dos Prelados A CNBB divulgou uma Nota que foi ridicularizada pelos leitores de Küster. Eles exigem uma resposta com fundamentos maiores.

Pois bem, são lados diferentes, razões, interesses e intenções... Há acertos e erros de ambos os lados. Nós esperamos que algo de bom suja disso e não sejam as raízes de um Cisma na Igreja. Torcemos pela mudança sem discórdias, mas com diálogos, compreensão, humildade e coragem. Estamos, infelizmente, com uma massa de leigos desinformada, não formada na sua própria fé. Penso que devem refletir com Bernardo Küster, mas penso também ser muito complicado quando vejo todos os aqueles comentários agressivos, maliciosos e maldozos contra Pe. Zezinho e Pe. Joãzinho e contra “toda a CNBB”. Precisamos balançar as estruturas, mas que isso seja feito com responsabilidade, afinal somos partes dela.

Para não me alongar muito deixo aqui os links do vídeo do Bernardo Küster (seu comentário), a Nota da CNBB e a Palavra do Pe. Zezinho. Desejo mudanças, é claro, e continuo acreditando na CNBB, mas também desejo que ela saiba viver o seu processo de “conversão”.

Vídeos do Bernardo Pires Küster: 
1 - O que deveria ser a CAMPANHA DA FRATERNIDADE - https://youtu.be/k2_Jc-BOrg0
2 -  A CNBB NO BANCO DOS RÉUS - https://youtu.be/fsPy6erjHE8
3 - Respostas e Discussões estão no Perfil do Facebook:  https://www.facebook.com/bernardopkuster
     Confira: 30 de janeiro e 25 de fevereiro de 2018.

- Palavra do Pe. Zezinho (Página do Pe. Joãozinho no Facebook): https://goo.gl/b7Usc3
 - NOTA DA CNBB - Nota de esclarecimento sobre a utilização de recursos do Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) - https://goo.gl/NDr7ZT

Por: Antonio Marcos

2018-02-24

I Pregação Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa




"Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo” (Rm 12, 2), foi o tema da I reflexão da Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa na Capela Redemptoris Mater a membros da Cúria. O Papa Francisco não participou por estar concluindo os Exercícios Espirituais em Ariccia.

Cidade do Vaticano
"Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo” (Rm 12, 2), foi o tema da I reflexão da Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa na Capela Redemptoris Mater a membros da Cúria. O Papa Francisco não participou por estar concluindo os Exercícios Espirituais em Ariccia.

Confira o texto na íntegra (A tradução é de Thácio Siqueira):

"Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito." (Rom 12, 2).

Numa sociedade em que todos se sentem investidos da tarefa de transformar o mundo e a Igreja, cai esta palavra de Deus que nos convida a transformar-nos a nós mesmos. . "Não vos conformeis com este mundo”: depois dessas palavras, esperávamos ouvir: "mas transformai-o!"; Em vez disso, se diz: “mas transformai-vos!”. Transformar, sim, o mundo, mas o mundo que está dentro de vós, antes de pensar em transformar o mundo que está fora de vós.

Será esta palavra de Deus, tirada da Carta aos Romanos, que nos introduzirá este ano no espírito da Quaresma. Como fazemos há alguns anos, dedicamos a primeira meditação a uma introdução geral à Quaresma, sem entrar no tema específico do programa, até mesmo por causa da ausência de parte do auditório envolvido nos Exercícios Espirituais.

1. Os cristãos e o mundo

 Em primeiro lugar, vejamos como esse ideal de desapego do mundo foi compreendido e vivido desde o Evangelho até nossos dias. É sempre útil ter em conta experiências passadas se quisermos entender as necessidades do presente.

Nos evangelhos sinóticos, a palavra "mundo" (kosmos) é quase sempre compreendida num sentido moralmente neutro. Tomado no sentido espacial,  mundo indica a terra e o universo ("ide ao mundo inteiro"), tomado em um sentido temporal, indica o tempo ou o “século” (aion) presente. É com Paulo e ainda mais com João que a palavra "mundo", é preenchida com um valor moral e significa, na maioria das vezes, o mundo depois do pecado e sob o domínio de Satanás, “o deus deste mundo” (2 Cor 4, 4). Daí a exortação de Paulo da qual nós partimos e, aquela, quase idêntica, de João na sua Primeira Carta:

"Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo."(1 Jo 2, 15-16).

Essas coisas não nos fazem perder de vista que o mundo em si mesmo, apesar de tudo, é e permanece, a boa realidade criada por Deus, que Deus ama e que veio para salvar, não para julgar: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16).

A atitude em relação ao mundo que Jesus propõe a seus discípulos encerra-se em duas preposições: estar no mundo, mas não ser do mundo:  “Já não estou no mundo – diz dirigindo-se ao Pai – ; eles, pelo contrário, ainda estão no mundo [...]. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo" (Jo 17,11. 16).

Nos primeiros três séculos, os discípulos estão bem cientes de sua posição única. A Carta a Diogneto, um escrito anônimo do final do segundo século, descreve dessa forma o sentimento que os cristãos tinham de si mesmos no mundo:

"Os cristãos não diferem do resto dos homens nem pelo território, nem pela língua, nem pelos hábitos de vida. De fato, não moram em cidades particulares, não usam de uma linguagem estranha, não levam um tipo de vida especial [...]. Moram tanto na cidade grega como na bárbara, como acontece, e apesar de iguais nas roupas, na comida e no resto da vida segundo os costumes do lugar, se propõem uma forma de vida maravilhosa e, segundo todos, paradoxal. Cada um mora na própria pátria, mas como forasteiros; participam de todas as atividades de bons cidadãos e aceitam todos os encargos como convidados passageiros. Toda terra estrangeira é uma pátria para eles, enquanto toda pátria é, para eles, terra estrangeira. Como todos, se casam e têm filhos, mas não expõem seus filhos. Eles têm em comum a mesa, mas não a cama. Vivem na carne, mas não segundo a carne"[1].

Façamos um breve resumo da história. Quando o cristianismo se torna tolerado e depois, em seguida, religião protegida e favorecida, a tensão entre o cristianismo e o mundo tende, inevitavelmente, a diminuir, porque o mundo se tornou, ou pelo menos, é considerado "um mundo cristão". Ocorre, assim, um duplo fenômeno. De uma parte, grupos de cristãos desejosos de permanecerem o sal da terra e não perderem o sabor, fogem, também fisicamente, do mundo e se retiram no deserto. Nasce o monaquismo sob a bandeira do monge Arsênio: “Fuge, tace, quiesce”, “Fuja, cale, viva retirado[2]”

Ao mesmo tempo, os pastores da Igreja e os espíritos mais iluminados tentam adaptar o ideal de desapego do mundo a todos os crentes, propondo uma fuga não-material, mas espiritual, do mundo. São Basílio no Oriente e Santo Agostinho no Ocidente conhecem o pensamento de Platão, especialmente na versão ascética que ele havia tomado com o discípulo Plotino. Neste ambiente cultural, estava vivo o ideal da fuga do mundo. Mas era uma fuga, por assim dizer, vertical, não horizontal, para cima, não para o deserto. Consiste em elevar-se por acima da multiplicidade das coisas materiais e das paixões humanas, para unir-se ao que é divino, incorruptível e eterno.

Os Padres da Igreja - os Capadócios em primeiro lugar - propõem uma ascética cristã que responde a essa exigência religiosa e adota a sua linguagem, sem, contudo, sacrificar os valores próprios do Evangelho. Para começar, a fuga do mundo inculcada por eles é trabalho da Graça mais do que esforço humano. O ato fundamental não está no final do caminho, mas no seu começo, no batismo. Portanto, não é reservada a poucos cultos, mas aberta a todos. Santo Ambrósio escreverá um breve tratado “Sobre a fuga do mundo”, dirigindo-o a todos os neófitos[3]. A separação do mundo que ele propõe é sobretudo afetiva: “A fuga – diz – não consiste no abandonar a terra, mas, permanecendo na terra, em observar a justiça e a sobriedade, em renunciar aos vícios e não ao uso dos alimentos” [4].
Este ideal de desapego e de fuga do mundo acompanhará, em formas diferentes, toda a história da espiritualidade cristã. Uma oração da liturgia resume-o no lema: "terrena despicere et amare caelestia", "desprezar as coisas da terra e amar as do céu".


2. A crise do ideal da "fuga mundi"

As coisas mudaram nos tempos próximos a nós. Atravessamos, referindo-nos ao ideal da separação do mundo, uma fase “crítica”, ou seja, um período no qual tal ideal foi “criticada” e olhada com suspeita. Tal crise tem raízes remotas. Começa – pelo menos a nível teórico – com o humanismo renascentista que traz de volta o interesse e o entusiasmo, às vezes de um tipo pagão, pelos valores mundanos. Mas o fator determinante da crise deve ser visto no fenômeno da chamada "secularização", iniciada com o Iluminismo e que atingiu seu pico no século XX.

A mudança mais evidente se refere precisamente ao conceito de mundo ou  de século. Ao longo da história da espiritualidade cristã, a palavra saeculum teve uma conotação tendencialmente negativa, ou, pelo menos, ambígua. Indicava o tempo presente sujeito ao pecado, em oposição ao século futuro ou à eternidade. Dentro de algumas poucas décadas, isso mudou até assumir nos anos 60 e 70 um significado netamente positivo. Alguns títulos de livros publicados naqueles anos, como The Secular Meaning of the Gospel (O significado secular do Evangelho) de Paul van Buren e The Secular City (A cidade secular) of Harvey Cox, destacam, por si só, esse novo, otimista significado de "século" e de "secular". Nasce uma “teologia da secularização”.

Tudo isso contribuiu, no entanto, para alimentar em algumas pessoas um otimismo exagerado em relação ao mundo, que não leva em conta o seu outro rosto: o de estar “submetido ao maligno” e se opor ao espírito de Cristo (cf. Jo 14, 17). Em um certo momento, percebeu-se que o ideal tradicional de fuga do "mundo" havia sido substituído, na mente de muitos (também entre clérigos e religiosos), pelo ideal de uma fuga "para" o mundo, isto é uma mundanização.

Neste contexto, escreveram-se algumas das coisas mais absurdas e delirantes que jamais tinham sido escritas sob o nome de "teologia". A primeira delas é a idéia de que o próprio Deus se seculariza e se mundaniza, quando se anula como Deus para fazer-se homem. Estamos na, assim chamada, “Teologia da morte de Deus”. Existe também uma saudável teologia da secularização que não é vista como algo oposto ao Evangelho, mas sim como um produto dele. Não é, no entanto, essa, a teologia de que estamos falando.

Alguém apontou que as "teologias da secularização" mencionadas eram somente uma tentativa apologética que pretendia “fornecer uma justificação ideológica da indiferença religiosa do homem moderno”; era também “a ideologia da qual a Igreja tinha necessidade para justificar a sua crescente marginalização[5]". Logo ficou claro que havíamos entrado em um beco sem saída; em poucos anos, quase não se falou mais sobre a teologia da secularização e alguns dos seus promotores se distanciaram dela.

Como sempre, tocar o fundo de uma crise é uma oportunidade para voltar a questionar a palavra de Deus "viva e eterna". Então, vamos ouvir novamente a exortação de Paulo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito."

Nós já sabemos qual é, para o Novo Testamento, o mundo ao qual não devemos conformar-nos: não o mundo criado e amado por Deus, não os homens do mundo aos quais sempre devemos ir ao encontro, especialmente os pobres, os últimos, os sofredores. O “misturar-se” com este mundo do sofrimento e da marginalização é, paradoxalmente, o melhor modo de “separar-se” do mundo, porque é ir lá onde o mundo foge com todas as suas forças. É separar-se do próprio princípio que governa o mundo, que é o egoísmo.

Reflitamos um pouco, em vez disso, no significado do seguinte: transformar-se renovando a intimidade da nossa mente. Tudo em nós começa da mente, do pensamento. Existe um sábio ditado que diz:

Vigie os pensamentos porque se tornam palavras.
Vigie as palavras porque se tornam ações.
Vigie as ações porque se tornam hábitos.
Vigie os hábitos porque se tornam o seu caráter.
Vigie o seu caráter porque se torna o seu destino.

Antes que nas obras, a mudança deve acontecer, portanto, no modo de pensar, ou seja, na fé. Na origem da mundanização existem muitas causas, mas a principal é a crise de fé. Neste sentido, a exortação do Apóstolo somente retoma aquela de Cristo no começo do seu Evangelho: “Convertei-vos e crede”, convertei-vos, ou seja, crede! Mude o modo de pensar; pare de pensar ‘segundo os homens” e passe a pensar “segundo Deus” (Mt 16, 23). Tinha razão santo Tomás de Aquino ao dizer que “a primeira conversão acontece acreditando”: prima conversio fit per fidem[6].

A fé é o principal campo de batalha entre o cristão e o mundo. É pela fé que o cristão não é mais “do” mundo. Quando leio as conclusões que tiram os cientistas ateus da observação do universo, a visão do mundo que nos dão escritores e cineastas, onde, na melhor das hipóteses, Deus é reduzido a um vago e subjetivo senso do mistério e Jesus Cristo não é nem sequer levado em consideração, sinto que pertenço, graças à fé, a um outro mundo. Experimento a verdade daquelas palavras de Jesus: "Bem-aventurados os olhos que vêem o que vocês vêem" e fico surpreso ao constatar como Jesus previu essa situação e deu uma explicação antecipada: “Escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10, 21-23).

Compreendido em um sentido moral, o “mundo” é por definição o que se recusa a acreditar. O pecado, do qual Jesus disse que o Paráclito “convencerá o mundo”, é de não ter acreditado nele (cf. Jo 16, 8-9). João escreve: "Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé" (1 Jo 5, 4). Na Carta aos Efésios, lemos: "E vós outros estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que cometestes outrora seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes." ( Ef 2, 1-2). O exegeta Heinrich Schlier fez uma análise penetrante deste "espírito do mundo" considerado por Paulo como o antagonista direto do "Espírito de Deus" (1 Cor 2, 12). Um papel decisivo desempenha nisso a opinião pública, hoje também literalmente espírito "que está no ar" porque se espalha através do éter.

"Se determina – escreve – um espírito de grande intensidade histórica, ao qual o indivíduo dificilmente pode escapar. Segue-se o espírito geral, tratando-o como óbvio. Agir ou pensar ou dizer algo contra ele é considerado insensato ou até mesmo uma injustiça ou um delito. Então não se ousa mais pôr-se diante das coisas e das situações e especialmente da vida de modo diverso de como ele as apresenta... A sua característica é de interpretar o mundo e a existência humana à sua maneira” [7].
É o que chamamos de "adaptação ao espírito dos tempos". Ele funciona como o vampiro da lenda. O vampiro se prende às pessoas que dormem e, enquanto suga o sangue, injeta simultaneamente um líquido soporífero nelas que as faz dormir de forma ainda mais doce, de modo que se afundam cada vez mais no sono e ele pode sugar todo o sangue que deseja. O mundo, no entanto, é pior do que o vampiro, porque o vampiro não pode adormecer a presa, mas se aproxima dos que já dormem. O mundo em vez disso, primeiro, adormece as pessoas e, em seguida, suga-lhes todas as energias espirituais, injetando também uma espécie de líquido soporífero que faz o sono ainda mais doce.

O remédio nesta situação é que alguém nos grite no ouvido: "Acorde!". É o que a palavra de Deus faz em muitas ocasiões e que a liturgia da Igreja nos faz ouvir novamente pontualmente no começo da Quaresma: "Desperta, tu que dormes” (Ef 5,14); "É hora de acordar do sono!" (Rom 13, 11).


3. A figura desse mundo passa

 Mas nos perguntemos por que o cristão não deve se conformar com o mundo. Isso não é de natureza ontológica, mas escatológica. Não se deve distanciar do mundo porque a matéria é intrinsecamente má e hostil ao espírito, como pensavam os platônicos e alguns Padres influenciados por eles, mas porque, como diz a Escritura, “a figura desse mundo passa” (1 Cor 7, 31); "O mundo passa com as suas concupiscências, mas quem cumpre a vontade de Deus permanece eternamente." (1 Jo 2, 17).

Basta parar por um momento e olhar em volta para ver a verdade dessas palavras. Isso acontece na vida como na tela da televisão: os programas, as chamadas grades de programação, sucedem-se rapidamente e cada uma cancela a anterior. A tela permanece a mesma, mas os programas e as imagens mudam. Assim acontece conosco: o mundo permanece, mas nós partimos um depois do outro. De todos os nomes, os rostos, as notícias que enchem os jornais e telejornais de hoje – de todos nós – o que permanecerá daqui a alguns anos ou década? Nada de nada.

Pensemos sobre o que resta dos mitos de 40 anos atrás e o que permanecerá daqui a 40 anos dos mitos e celebridades de hoje. "Isso acontecerá – lê-se em Isaías - tal como acontece com o esfomeado que sonha estar comendo e desperta com o estômago vazio, tal como o sequioso que sonha estar bebendo e acorda fatigado pela sede" (Is 29,8). O que são riquezas, saúde, glória, se não um sonho que desaparece ao despontar da aurora? Eis que um pobre, dizia Santo Agostinho, uma noite teve um lindo sonho. Sonha que recebeu uma enorme herança. No sonho se vê coberto de lindas roupas, cercado de ouro e prata, possuidor de campos e vinhas; no seu orgulho despreza o própro pai e finge não reconhecê-lo... Mas, acorda pela manhã e se vê do mesmo jeito que havia dormido[8].

"Nu, saí do ventre da minha mãe, e nu vou voltar", diz Jó (Jó 1, 21). O mesmo acontecerá com os bilionários de hoje com seu dinheiro e com os poderosos de hoje que fazem o mundo tremer com o seu poder. O homem, visto fora da fé, é apenas “um desenho criado pela onda na praia do mar cuja onda sucessiva o apaga”.

Hoje existe um novo campo em que é particularmente necessário não se conformar com este mundo: as imagens. Os antigos tinham inventado o lema: "Jejuar do mundo” (nesteuein tou kosmou) [9]; hoje isso deve ser entendido no sentido de jejuar das imagens do mundo. Uma vez era considerado mais eficaz o jejum dos alimentos e das bebidas. Não é mais assim. Hoje se jejua por muitas outras razões: especialmente para manter a linha. Nenhum alimento, diz a Escritura, é impuro, enquanto muitas imagens são. Elas se tornaram um dos veículos privilegiados com o qual o mundo difunde o seu antievangelho. Um hino da Quaresma exorta:

Utamur ergo parcius
Usemos parcamente
Verbis, cibis et potibus,
de palavras, comida e bebida,
Somno, iocis et arctius
de sono e de entretenimentos.
Perstemus in custodia.

Estejamos mais vigilantes em proteger os sentidos.

 Para a lista de coisas a serem utilizadas com moderação - palavras, alimentos, bebidas e sono – dever-se-ia adicionar as imagens. Entre as coisas que vêm do mundo e não do Pai, ao lado da concupiscência da carne e da soberba da vida, São João coloca significativamente “a concupiscência dos olhos" (1 Jo 2, 16). Lembremos como o rei David caiu ... O que aconteceu com ele olhando para o terraço da casa ao lado, acontece hoje, muitas vezes, abrindo certos sites na internet.

Se em algum momento nos sentimos perturbados por imagens impuras, tanto por imprudência própria, quanto por intromissão do mundo que derrama à força as suas imagens nos olhos das pessoas, imitemos o que fizeram no deserto os hebreus que haviam sido mordidos pelas serpentes. Em vez de se perder em arrependimentos estéreis, ou procurar desculpas na nossa solidão e na incompreensão dos outros, olhemos para um Crucifixo ou vamos diante do Santíssimo. “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do homem, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3, 14-15). Que o remédio passe por onde passou o veneno, ou seja, pelos olhos.

Com estes propósitos sugeridos pela palavra de São Paulo aos Romanos, e especialmente com a graça de Deus, iniciemos, Veneráveis padres, irmãos e irmãs, a nossa preparação para a Santa Páscoa. Fazer a Páscoa, dizia Santo Agostinho, significa “passar deste mundo ao Pai” (Jo 13, 1), ou seja, passar ao que não passa! É necessário passar do mundo para não passar com o mundo. Boa e santa Quaresma".
___________________
1 Carta a Diogneto, V, 1-8  (Die Apostolischen Vaeter, ed. Kunk –Bihlmeyer, Tubingen 1856, pp. 143-144, tradução Thácio Siqueira)
2 Cf. Vita e Detti dei Padri del deserto, a cura di L. Mortari, I, Roma 1986, p. 97.
3 Cf. De fuga saeculi, 1 (CSEL, 32, 2, p. 251).
4 S. Ambrogio, Espos. del Vang. sec. Luca, IX, 36; De Isaac et anima, 3, 6. (Tradução Thácio Siqueira).
5 Cf C. Geffré, art. Sécularisation, in Dictionnaire de Spiritualité, 15, 1989, pp. 502 s. (Traduçã Thácio Siqueira).
6 S. Tommaso d’Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q.113,a,4.
7 H. Schlier, Demoni e spiriti maligni nel Nuovo Testamento, in Riflessioni sul Nuovo Testamento  Paideia, Brescia 1976, pp. 194 s.
8 Cf. S. Agostinho, Sermo 39,5 (PL 38, 242).
9 O lema vem de um ditado não canônico atribuído ao próprio Jesus: “Se não jejuardes do mundo, não descobrireis o reino de Deus”. Cf Clemente Al., Stromati, 111, 15 (GCS, 52, p. 242, 2); A. Resch, Agrapha, 48 (TU, 30, 1906, p. 68).

Fonte: vaticannews, 23 de fevereiro de 2018.



2017-05-30

Convenção Shalom 35 anos: PROGRAMAÇÃO DOS CONVIDADOS



Por Angela Barroso

Estamos em contagem regressiva! Faltam 100 dias para a Convenção Shalom, que acontece de 03 a 09 de setembro em Roma. A programação já conta com a presença confirmada de vários convidados especiais para cada dia do evento, que compartilharão conosco as bênçãos e as alegrias deste momento inesquecível.

Confira:

Domingo,03 de setembro – Missa de abertura, com Monsenhor Rino Fisichella,  arcebispo, teólogo italiano e Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização no Vaticano.

Segunda, 04 de setembro – Encontro com o Santo Padre, o Papa Francisco. Missa de abertura do Congresso Internacional de Jovens Shalom com o Cardeal Dom Claudio Hummes, Prefeito Emérito da Congregação para o Clero. Presidente do Conselho Internacional de Catequese

Terça, 5 de setembro – Santa Missa no Congresso Internacional de Jovens Shalom, com Cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a família e a vida

Quinta, 7 de setembro –  Dia da Misericórdia, com o Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa que estará com toda a Comunidade em Assis

Sexta, 8 de setembro –  Santa Missa, Dia Mariano com Cardeal Rylko, Arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior e Presidente Emérito do Pontifício Conselho para os Leigos. 

Sábado, 9 de setembro – Dia dedicado à pessoa do Espírito Santo, com pregação de Padre Daniel –Ange, fundador da escola de evangelização Jeneusse-Lumière e escritor. A Convenção encerra com Santa Missa presidida pelo Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário Geral do Sínodo dos Bispos, em ação de graças pelos 35 anos da Comunidade e envio missionário.

Você não pode ficar de fora, garanta logo sua presença pelo site www.comshalom.org/35anos, e escolha o seu pacote que te levará a viver com a Igreja esse tempo de graça. Só faltam 100 dias!

Fonte: comshalom.org / 25 de maio de 2017

2017-05-29

Dia Mundial das Comunicações Sociais 2017: “A Igreja também tem que ser uma voz presente na vida da sociedade”

Neste domingo (28), Ascensão do Senhor, foi celebrado também o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Com o tema “Comunicar esperança e confiança no nosso tempo”, o papa Francisco propõe um estilo “aberto e criativo” para comunicar esperança. Na mensagem, divulgada pelo pontífice pela ocasião do 51º Dia Mundial das Comunicações, ele encoraja todos que trabalham na área para a comunicar de modo construtivo, ou seja, rejeitando preconceitos e promovendo uma cultura do encontro. O texto sempre se torna público no dia de São Francisco de Sales, patrono dos escritores e jornalistas, celebrado em 24 de janeiro.


Para celebrar esta data importante para a comunicação, o portal da CNBB entrevistou o jornalista presidente da Signis Brasil, frei João Carlos Romanini sobre o trabalho da Igreja nos meios de comunicação. A associação Signis é órgão reconhecido pela Santa Sé que reúne associais nacionais de meios de comunicação da Igreja em mais de 100 países.

Arquivo Pessoal
No bate papo, frei Romanini falou da importância dos meios de comunicação da Igreja Católica, em especial no Brasil.

“A igreja também tem que ser uma voz presente na vida da sociedade, por isso, a Igreja no Brasil está configurada com vários veículos de comunicação. Temos várias emissoras de TV, de rádio, muitos impressos, revistas, jornais e uma série de portais. Então, a Igreja tem que ter este espaço, ela tem que se ruma voz ativa, principalmente, neste ano em que celebramos o 51º Dia Mundial das Comunicações com o tema ’Comunicar esperança e confiança no nosso tempo’. Acredito que os veículos de comunicação da igreja têm que ter esse papel, numa sociedade onde os valores estão em objetos e em coisas, nós temos que semear a esperança. Por isso, que a comunicação está configurada desta forma no Brasil, para ser uma voz de esperança na vida da Igreja”, afirmou Romanini.

Qual tipo de transformação esses meios de comunicação católicos proporcionam para as comunidades, especialmente no rádio?

Como a informação é imediata, o rádio tem um papel primordial de aproximar pessoas e levar as pessoas a determinados locais, por exemplo. Na vida da Igreja, o rádio tem esse papel de mostrar que a Igreja está articulada, que tem eventos, muitas atividades e a voz do sacerdote local, da paróquia, das pastorais, elas são uma força viva nas comunidades. E o rádio tem o papel de mostrar essa força da Igreja no local, junto com outras forças, ele é primordial para a transformação e aproximação das pessoas. A rádio local tem esse papel de fazer com que as pessoas das comunidades tenham esperança.

A evangelização através dos meios de comunicação muda a realidade de uma comunidade local?

É muito importante que os veículos façam com que as pessoas discutam determinadas pautas que são relevantes à vida humana. Por exemplo, participação política, organização das comunidades locais, discussão de problemas nacionais. O veículo católico tem que provocar essas discussões para transformar a vida local. O meio de comunicação não é um transformador, mas ele sugere assuntos que a comunidade pode discutir e partir da sua organização ele vai sendo um canal e contribuindo para a mudança da realidade local.

E como esses meios de comunicação estão organizados no Brasil?

Muitas dioceses, congregações, ordens religiosas possuem veículos de comunicação e todos eles, sejam confessionais ou comerciais, seguem as diretrizes da Igreja do Brasil e, principalmente, do Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, produzido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Documento 99 da CNBB, que orienta a organização da comunicação da Igreja do Brasil. Atualmente, a Signis Brasil, que é uma associação católica de comunicação, busca discutir e tentar organizar as comunicações na Igreja. Por exemplo, a organização de grupo de emissoras de televisão para que todos tenham um mesmo discurso, uma mesma narrativa dessa informação da Igreja. Além das emissoras de TV, a Signis Brasil em parceria com a Rede Católica de Rádio tem mais de 300 emissoras espalhadas no Brasil. Temos entre 10 e 12 redes regionais de rádios católicas que seguem a orientação de comunicação do documento da CNBB. Temos também uma rede nacional de impressos com 11 veículos entre revistas e jornais organizados em forma de rede que trabalham em pautas conjuntas. Sem falar nas editoras e na produção independente que seguem as mesmas diretrizes na produção da informação. A Signis Brasil também está pensando nesse olhar da produção de conteúdo. Queremos começar a discutir, dialogar com as universidades, com cursos de jornalismo, para que essas faculdades e universidades possam colocar no mercado profissionais que tenham esse olhar ético cristão e que sejam também semeadores de esperança.

Diretório

Fonte: CNBB
O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, produzido pela Comissão Episcopal para a Comunicação da CNBB está disponível no site da Edições CNBB. O Documento 99 da CNBB é composto por 189 páginas, distribuídas em 10 capítulos, contendo critérios de ações evangelizadoras, orientações, referências comunicacionais, além de um pequeno glossário.
Destinado a todos os envolvidos com a comunicação eclesial, o documento tem como objetivo motivar a Igreja a uma reflexão sobre a natureza e a importância da comunicação para a vida da comunidade eclesial, nas relações entre seus membros, nos processos de evangelização e no diálogo com a sociedade. De acordo com informações do Vaticano, só existem dois diretórios de comunicação eclesial no mundo: um na Itália e o do o Brasil. (Arte capa: Edições CNBB/Sávio Gerardo)


Fonte: Arquidiocese de Fortaleza / Pascom - 29/05/2017  -